O bebê roubado do hospital e achado pelos pais quando já era adolescente

Por Blog do Acervo 10/11/2022 - 15:20 hs
Foto: Givaldo Barbosa/Agência O GLOBO
O bebê roubado do hospital e achado pelos pais quando já era adolescente
Caso Pedrinho. O menino sequestrado, ao encontrar seus pais biológicos, em 2002

Maria Auxiliadora Rosalino e Jairo Braule já tinham dois filhos quando Pedrinho nasceu, em 20 de janeiro de 1986. Treze horas depois do parto, a mãe estava com o bebê no quarto 10 do Hospital Santa Lúcia, na Asa Sul de Brasília, e uma mulher na casa dos 30 anos apareceu se identificando como assistente social. Ela foi gentil e disse que precisava levar o recém-nascido para exames. Auxiliadora não questionou. Seu terceiro rebento havia morrido dois dias após vir ao mundo. Então, nenhum cuidado lhe parecia excessivo. Ela não imaginou que seu recém-nascido estava sendo raptado.

Pouco depois, ao ficar claro que Pedrinho havia sido levado, as autoridades foram acionadas. A sequestradora, segundo depoimentos ouvidos por investigadores, entrara em outros quartos e conversara com outras mães, antes de escolher sua vítima e sair com o bebê da maternidade sem ao menos ser questionada. No dia seguinte, as polícias Civil e Federal passaram a monitorar estradas e fronteiras. O delegado responsável pelo caso, porém, descartava hipótese de tráfico internacional e acreditava que o recém-nascido sequer havia deixado as redondezas de Brasília.

Nas semanas seguintes, várias pessoas foram consideradas suspeitas, mas a polícia não encontrou a responsável pelo crime e nem o bebê. Com o tempo, as investigações foram interrompidas, mas Maria Auxiliadora nunca parou de acreditar que veria seu filho de novo. Numa entrevista ao GLOBO em 1989, a então funcionária do Banco do Brasil estava seguindo pistas desprezadas pela polícia e escrevendo um livro, que seria publicado com o título "Devolvam meu filho: O caso Pedrinho". Entretanto, muito tempo ainda se passaria até novembro de 2002, quando, afinal, o menino foi encontrado.


Caso Pedrinho. Maria Auxiliadora e Jairo, três dias após o rapto do filho, em 1986         Foto: Juan Carlos Gomez/Agência O GLOBO

Aos 16 anos de idade, Pedrinho estava vivendo em Goiânia com Vilma Martins Costa, a sequestradora que o criara como se fosse seu filho, sob o nome de Osvaldo Borges Júnior. No dia 8 de novembro de 2002, um exame de DNA confirmou que o menino era filho de Maria Auxiliadora e Jairo. O rapaz se encontrou com os pais biológicos dois dias depois, há exatos 20 anos, num escritório de advocacia em Goiânia. Em seguida, foram todos a uma churrascaria. A certa altura do almoço, Vilma puxou Auxiliadora pelo braço: "Você sabe muito bem que não fui eu", disse ela, que até então jurava inocência.

A sequestradora sustentava que Pedrinho fora levado a ela, quando bebê, por um gari que o achara no lixo. Mas a polícia não comprou a versão e passou a interrogar pessoas próximas a Vilma. No dia 14 daquele mês, a própria mulher confessou o crime. Mais tarde, os investigadores descobriram que ela criava também uma menina tomada de outro casal quando bebê, em 1979. Nenhum dos "filhos" tinha ideia de suas origens reais. Por esses crimes, Vilma seria condenada a 15 anos de prisão.

Pedro foi encontrado graças a uma jovem de 19 anos, parente de Vilma. Após a morte de Osvaldo Borges, marido da sequestradora, a menina ouviu os pais dela falando sobre a hipótese de o garoto ser o bebê raptado em 1986. Fuçando na internet, a moça encontrou referências sobre o crime e uma foto de Jairo Braule aos 10 anos de idade na qual havia nítidas semelhanças faciais com o garoto. A jovem, então, procurou o instituto SOS Criança, cuja diretora acionou a polícia e fez contato com Jairo e Maria Auxiliadora. O teste de DNA, autorizado pela Justiça, trouxe a confirmação das suspeitas. 


Caso Pedrinho. Vilma Martins após confessar o sequestro do bebê, em 2002          Foto: Reprodução da TV Globo

Pedrinho contou ao GLOBO, no dia do reencontro, que a situação era muito difícil, mas que tentava lidar com tudo de forma simples. Disse ainda que gostara muito de conhecer seus pais biológicos. "Eles são gente boa demais", afirmou o garoto, que, no entanto preferiu continuar com Vilma. "Vou continuar morando com a minha mãe, mas vou estar sempre com meus novos pais. Nosso relacionamento vai ser o melhor possível". O casal se frustrou por não levar o filho para casa, mas entendeu que os laços entre eles seriam construídos com o tempo. Foi o que aconteceu.

Em julho de 2003, o rapaz se mudou para a casa dos pais biológicos e adotou o nome de Pedro Júnior Rosalino Braule Pinto. Mas ele manteve contato com Vilma e a irmã de criação, Roberta. Em novembro daquele ano, O GLOBO publicou uma entrevista com o adolescente. "Não condeno, nem absolvo minha mãe. O que importa é o amor que ela me deu", disse o então estudante, que se mostrou bem à vontade vivendo com Auxiliadora e Jairo. "Nunca imaginava que isso fosse acontecer comigo. Mas fiquei feliz de saber minha história. Nunca tive medo da verdade, para mim a verdade é sempre melhor".

Durante a entrevista, o adolescente revelou que queria estudar Direito, para virar delegado. Hoje aos 36 anos, Pedro Júnior Rosalino é advogado formado pelo Centro Universitário de Basília (UniCeub), casado e pai de duas crianças, um menino de 9 e uma menina de 3 anos de idade. No meio jurídico em Brasília, muitos conhecem sua história de vida e se referem a ele como o "Doutor Pedrinho".

Em 2017, seu nome ganhou destaque após a divulgação da notícia de que ele trabalhava em um grande escritório da capital e atuava na defesa do hoje deputado federal Aécio Neves (PSDB-MG), investigado num processo da Operação Lava-Jato. Na época, o advogado, dizendo-se uma pessoa reservada, deu poucas entrevistas, mas contou que estava bem com a família biológica e que ainda mantinha contato com Vilma. O Blog do Acervo entrou em contato com o escritório de Rosalino e mandou e-mail para o advogado, solicitando uma entrevista, mas não obteve resposta.


Pedro Júnior Rosalino em foto de 2021 — Foto: Reprodução/Instagram